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Aroldo Melodia, moleque travesso, galanteador, mergulhador e engraxate. A noite era o cenário!O palco a tua casa! Paixão pela União da Ilha que era difícil descrever. Voz da folia! O dono da voz que imortalizou os sambas da União. Nascido em 1930 na Ilha do Governador, e batizado com o nome de Aroldo Forde. Aroldo Melodia viveu boa parte de sua vida no Conjunto Tijolinhos, no Cocotá. No mundo do samba, é consagrado cantor e compositor, dono do famoso "Segura a marimba!" que anunciava a entrada da alegre e comunicativa escola insulana na Avenida. Aroldo teve sete filhos, sendo que um deles, Aroldão, faleceu na porta da agremiação, vítima de um atropelamento. Outro, Ito, segue honrando o talento e o nome do pai, hoje como intérprete oficial da União da Ilha.
Antes do falecimento, Aroldo concedeu bela e emocionada entrevista ao site OBatuque. Nela,reconstruiu sua história de vida, relembrou momentos importantes para a construção da identidade da Ilha no mundo do samba, além de momentos importantes para a agremiação que sua voz defendeu até seus últimos dias.Como homenagem, o Fuzuê reproduz parte dessa entrevista afim de que todos conheçam esse homem simples, sambista do povo, cujo a voz está definitivamente gravada na História das conquistas do samba.
Ao lado do Quinho do Salgueiro, quando o interprete ainda estava na União.Como foi sua infância no bairro da Ilha do Governador?
Aroldo Melodia – Na infância a gente brincava muito e eu gostava muito de pular nos bailes de carnaval. Aqui na Ilha tinha os bailes e só fui convidado pra União da Ilha depois de conseguir me profissionalizar.
Na sua família havia pessoas ligadas ao samba, músicos, artistas....
Aroldo Melodia – Minha mãe era doméstica, mas meu pai, que era estivador, gostava muito de música. Pra ele, era como se fosse músico, mas profissionalmente não, porque naquele tempo a música não remunerava nada. As pessoas faziam porque gostavam e ele todo ano botava um surdo nas costas e saía pela rua a baixo. Eu mesmo nunca pensei em ser sambista. Mesmo quando comecei a compor para a União da Ilha, não pensava em ser cantor.
Como era sua participação no carnaval do bairro?
Aroldo Melodia – Eu vivia muito no Booggie-Woogie, morro que tem atrás da atual quadra da União da Ilha. Lá,com os parceiros Ademar e Nelson Pequenininho, fundamos o Bloco Paraíso Imperial, que desfilava no Cacuia junto com o Bloco Império da Ligação, o Boi da Freguesia .... E esse Bloco que fundamos era no Cacuia mesmo, mas não tínhamos filiação, não.
Como foi sua ida para a União da Ilha?
Aroldo Melodia – Teve um dia que a gente estava lá na Ribeira, que na época era o ponto de bate-papo da rapaziada, e apareceu o Paulo Amargoso. Isso foi em 58. Ele chegou e falou "Vamos lá pra União da Ilha, rapaz" e eu disse que tinha o nosso bloco de samba e estava tudo bem. Mas Paulo disse que era aquela coisa de uma escola só, que era a União. Que eu ia pra lá ajudar e esse negócio todo, e eu disse a ele que ia pensar. No mesmo dia, eu subi o morro direto e encontrei com o Ademar e o Nelson, os dois já falecidos, e falei que o Paulo tinha chamado pra ir para a União. Eles disseram que era uma coisa pessoal, que só eu podia decidir, e, então, disse que ia para a União da Ilha, que ia lá pra ajudar também. Naquela época, na União tinha poucos instrumentos, os instrumentos foram emprestados para a escola e ficamos lá.
Como foi esse primeiro ano na União?
Aroldo Melodia – Foi em 58, foi muito bom. Tive uma surpresa que Deus me deu, essa é minha referência que eu guardo até hoje, sou forte porque guardo. Então recebi logo um posto como cantor. Naquela época, nós éramos cantores, crooner, intérpretes, só nome bonito. Só não tinha retorno financeiro e eu fui tudo isso pela União da Ilha. Tanto que conheci todos os estados do Brasil pela escola, conheci
Fale um pouco sobre a Ala de Compositores da escola.
Aroldo Melodia – Essa história é muito grande, vai até me cansar de falar, mas eu vou falar. A Ala de Compositores é uma criação minha, eles de repente não vão assumir isso, não, mas realmente foi. Quando eu cheguei na escola, no final da década de 50, início de 60, o número era muito pequeno de compositores. Só tinha dois pares de compositores. Didi, Aurinho, Mundinho e Brasília e não tinha cantor fixo. Não lembro bem o ano, não se tinha muito interesse, até porque não tinha dinheiro como se tem hoje e o Paulo Amargoso, que era o presidente, não quis se candidatar, e deixou com o Orfilo, o Altair e alguns outros. Ele convidou um amigo, que era também estivador, que aceitou e assumiu a presidência. A primeira pessoa que procurou para conversar sobre a escola fui eu. E ele queria saber por que tinha uma política toda braba pro meu lado. Eu disse que não tinha nada a ver com isso e que continuava a ser o Aroldo Melodia. Mais à frente chegou um compositor da Colônia de Pescadores e, no final das contas, eram só sete compositores, se não me engano. Já tinha alguns anos na escola e todo ano eles ganhavam o samba, Aurinho e Didi. Um dia lá cismei, cheguei pra Leôncio e falei "Vamos escrever?". Fizemos um samba para o Bloco Guerreiros, também do Cacuia, e viemos fazer samba para a União. Na época eu tinha um projeto de cada um escrever o samba e apresentar na hora, pra evitar o que se chamava de "samba de escritório". Quem levantou essa lebre foi o Davi Corrêa, isso já existia muito anos atrás. De mim ninguém pode falar, porque eu sempre fui correto com isso.
Qual o momento mais marcante que o senhor viveu na Avenida? O samba-enredo que mais mexeu com sua emoção?
Aroldo Melodia – Foi "Domingo" (1977). Isso não tem como ser diferente. A própria mídia diz isso e volta e meia passa alguma coisa sobre aquele ano. O meu samba não poderia ser ("Lendas e festas das Yabás", 1974), que foi antes, ainda no grupo de baixo, não tem mais graça. Eu é que forço barra pra cantar na quadra. Agora, tem um samba que ninguém pode tirar nunca. Na escola não pode deixar de tocar nunca, que é o hino "Azul, Vermelho e Branco".
Desde 1995, último ano em que cantou na Avenida pela escola, o senhor vem acompanhando os desfiles ou em cadeiras de rodas ou em carros alegóricos. Como é esse momento? A emoção ainda é a mesma? Ainda vale o prazer do desfile?
Aroldo Melodia – A emoção é a mesma, sim, ou até maior. Porque o que a gente vê é o reconhecimento do público, nem da descola, dos diretores, mas do público. Este ano eles fizeram uma paródia, que era assim: "Aroldo, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!". Isso emociona muito, é como gratidão ao trabalho que a gente fez.

Os memoravéis desfiles da União da Ilha, emoldurados pela voz de Aroldo Melodia!
O Fuzuê te abraça e lhe manda luz!!!



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